Ao pódio *

Artigo publicado originalmente no Blog do Noblat
Em uma das primeiras Paralimpíadas, uma cena comoveu o mundo: atletas disputavam uma corrida quando um concorrente caiu. Os demais se voltaram para ele, o ergueram e combinaram chegar juntos à linha final. Todos venceram.
Isso vai contra o espírito do nosso tempo. E talvez mesmo contra o tal espírito olímpico surgido nos Jogos de Londres de 1908, popularizado pelo francês Barão de Coubertin: “o importante é competir”.
Aristóteles, que viveu terra natal dos Jogos Olímpicos, disse que “sem amigo ninguém pode viver bem, ainda que possua todos os bens” (em Ética a Nicômano). Por isso se fala dos Jogos como sinal de amizade entre os povos, ainda que emulados pela acirrada disputa para ver quem consegue subir ao pódio do melhor desempenho, ganhando ouro, prata ou bronze. Ao menos as medalhas não são de feitos de guerra.
Para simbolizar essa expectativa de sadia competição, sem destruição do oponente, a tocha olímpica percorreu, em 82 dias, 277 cidades brasileiras. É certo que foi apagada em protesto aqui e ali, pelos que desejam a chama da prioridade social e da transparência, e não o afã de lucro das empresas patrocinadoras…
Durante 17 dias, desde 5 de agosto, mais de 12 mil atletas de 206 países disputam 42 modalidades esportivas diferentes. A delegação brasileira, por estar em casa, será a maior da nossa história: 465 esportistas. Gigantesco também será o aparato militar: nada menos que 85 mil agentes das Forças Armadas, Polícias e Guarda Municipal!
Mas, assim como devemos aspirar a globalização da solidariedade, contra todas as opressões, o pódio duradouro em que devemos subir é bem outro: o da Educação, nesse país em que seus profissionais não são valorizados e apenas 20% das escolas têm quadras poliesportivas (não massificamos nem diversificamos os esportes); o da Saúde, que está pela hora da morte e não atende as urgências básicas da população; o da Segurança, cuja falência, no Rio de Janeiro, produziu, ano passado, quatro mil assassinatos, quase todas pessoas pobres; o da Mobilidade Urbana, que faz com que 60% dos moradores das nove regiões metropolitanas do país gastem mais de duas horas para ir e voltar do trabalho todo dia; o do Ambiente, cujo símbolo da falta de cuidado é a Baía de Guanabara, que ainda recebe os dejetos de 2/3 da população do seu entorno; o da Ética Política, que tem no conluio empresas-grandes partidos (inclusive nas obras dos Jogos 2016!) os dutos da mais criminosa corrupção, que subtrai  para bolsos privados cerca de 30% de recursos públicos.
A preparação para ganharmos medalhas nesses quesitos essenciais à vida pede consciência cidadã, organização e luta, desde já!  Só assim eternizaremos a chama olímpica de uma Nação justa e fraterna.

 

* Chico Alencar – deputado federal PSOL – Rio de Janeiro

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