Depois de 10 anos: quem matou Toninho?

Registro aqui fragmentos da história de um Prefeito com “Coragem de Mudar”, sobretudo aos adolescentes e jovens de tempos atuais, cada vez mais desiludidos pelos inúmeros esquemas de corrupção e impunidade de poderosos, país afora. 

A pergunta do título é repetida há uma década por familiares, amigos e o povo que, não acreditam nas investigações e conclusões do assassinato do ex-Prefeito de Campinas Antonio da Costa Santos.

Toninho do PT, como ficou conhecido, nos anos 70 atuou no movimento Assembléia do Povo e na urbanização de favelas e melhoria das condições de moradia. Dedicou-se à defesa do patrimônio histórico de Campinas sendo responsável pela preservação de vários prédios, inclusive a sua própria casa, antigo pouso de bandeirantes do século XVIII; localizada no Jardim Proença, onde resiste uma Casa Grande e uma Tulha, restauradas com ajuda de companheiros do movimento.

Em 1989 foi eleito vice-prefeito de Campinas na chapa do PT encabeçada por Jacó Bittar e foi nomeado Secretário de Obras. Denunciou corrupção envolvendo o próprio Prefeito, o então governador Quércia e o presidente Collor e por isso foi exonerado do cargo.

Na década de 1990 aprofundou seus estudos sobre Campinas no doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela USP. Aprimorou aí sua batalha contra a especulação imobiliária e  empreiteiras, moveu inúmeras ações judiciais, encaminhou denúncias e organizou protestos em defesa do patrimônio público.

Em 1996 concorreu às eleições para Prefeito, sem qualquer recurso da direção nacional do PT. Contando apenas com apoio militante debateu as desigualdades sociais e o papel do Estado, chegando em terceiro lugar. Durante a campanha, debateu seu projeto com grupo de trabalhadores em luta por moradia numa ocupação em Campinas que, ato contínuo, fundaram o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST.

Em 2000, foi eleito Prefeito de Campinas com o slogan “Coragem de Mudar!”. Desde então contrariou diversos interesses de setores abastados e iniciou profundas mudanças na administração e no orçamento municipais. Revisou contratos nas áreas de merenda escolar, segurança e coleta de lixo gerando economia aos cofres públicos. 

Criou a Área de Preservação Ambiental de Sousas e Joaquim Egídio, projeto que estava engavetado há 12 anos, o que frustrou interesses do setor imobiliário. Lançou o projeto da cidade Viracopos, para construir um bairro com toda infraestrutura e serviços que abrigaria com dignidade e segurança as famílias desalojadas na expansão do Aeroporto.

Com oito meses de governo, Toninho foi assassinado em 10 de setembro de 2001, com um tiro certeiro que lhe acertou na altura no peito. Seu velório mobilizou mais de 100 mil pessoas dada a comoção e o carinho da cidade por Toninho.

Ao longo das “investigações” foram muitos os problemas: desprezo de provas; confissões forçadas depois provadas irregulares; diligências ilegais e assassinatos de supostos acusados cometidos pela polícia de Campinas no litoral paulista; linhas de investigações com farta documentação ignoradas pela polícia; e  fechamento do inquérito com provas e conclusões inconsistentes.

O Juiz José Henrique Torres rejeitou a denúncia dos promotores, reforçando a tese de que o assassinato não foi bem investigado. Sua decisão que reabriu o caso foi contestada pelo MP mas, acabou mantida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Apesar disso, a polícia paulista alega falta de estrutura para investigações.

Por tudo isso, o Estado brasileiro não pode mais continuar omisso diante do caso. A Polícia Federal precisa refazer com seriedade, todos os caminhos ignorados ou descartados pela polícia paulista para que não prevaleça, mais uma vez, a impunidade que alimenta o crime praticado pelas classes abastadas no Brasil.

Paulo Bufalo - Publicado no Jornal Saiba Mais n.7, ano 1, out/2011.

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