Os sentidos da “primavera brasileira”

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As manifestações de junho deram boas vindas à “primavera brasileira”. Coloriram as ruas de flores e sonhos, e, embora ainda não tenham gerado transformações tão profundas como as produzidas pela “primavera árabe”, tiveram seus próprios frutos.

Alguns desses frutos foram visíveis, como foi o caso da redução das tarifas do transporte coletivo em todo país. Logo após, os governos conservadores anunciaram que não iriam negociar e usaram a polícia contra as manifestações.

Porém, não se pode desprezar o essencial, como escreveu Saint-Exupéry, há setenta anos, quando narrou os caminhos do Pequeno Príncipe no desafio de compreender seu mundo: “O essencial é invisível aos olhos”.

A compreensão da “primavera brasileira” pressupõe desprendimento de ideias e de valores consolidados, em ouvir a voz de quem não tem espaços para manifestá-la e não encontram nas instituições a representação de seus interesses, nem tão pouco, o empenho em buscar os sentidos da população em movimento.

A “primavera brasileira” rompeu o silêncio e a aparente estabilidade do país. Denunciou a corrupção; o aumento da violência, do preconceito e do extermínio da juventude pobre e negra; os gastos exorbitantes em obras superfaturadas da copa; as remoções arbitrárias de comunidades inteiras; as privatizações da educação, saúde e exploração do petróleo; a concentração dos meios de comunicação nas mãos de políticos, entre outras que, até então, geravam pouca comoção por não incomodar o poder instalado.

A primavera chegou de fato e as manifestações permaneceram colorindo as ruas por novas pautas. Em recentes atos, as Reitorias de duas universidades públicas paulistas foram ocupadas.

Na Universidade de São Paulo – USP, a principal reivindicação é por democracia na escolha do Reitor e na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, reivindica-se uma política de segurança interna sob responsabilidade direta da própria Universidade.

Apesar das peculiaridades, ambas mobilizações reivindicam a universidade em sua essência e seus princípios indissociáveis de educação, pesquisa e extensão. Isso requer o reconhecimento do protagonismo de todos que constroem a universidade e a integração dela à comunidade onde está inserida.

Neste sentido, a eleição direta para Reitores com voto de estudantes e do conjunto dos trabalhadores das universidades, incluídos aí os professores, é fundamental para a democracia direta, o convívio nos campi, a qualidade dos serviços e a definição de rumos das universidades, além de fazer muito bem ao seu caráter público.

Já o debate sobre a segurança na UNICAMP ganhou relevância depois do trágico assassinato do estudante Denis Casagrande, em uma festa ocorrida no interior do campus.

Diante da repercussão do caso, o governo do estado e a direção da universidade trataram de responder rapidamente à comoção gerada na sociedade mas, ignorando o fato da UNICAMP estar numa região do estado que mais sofre com o caos da segurança pública, onde inúmeros jovens têm suas vidas arrancadas.

O próprio entorno da UNICAMP, distrito de Barão Geraldo, vive uma escalada de crimes contra a vida e o patrimônio, com aumento de roubos, furtos, estupros e latrocínios segundo a própria Secretaria de Segurança Pública. Aceitar a atuação da Polícia Militar – PM, no interior da universidade, só ampliaria o problema naquele território. Dizer que isso reduziria os índices de violência no campus é enganar a população.

Na USP da capital, foi o assassinato do estudante Felipe Ramos de Paiva, em maio de 2011, que originou a assinatura do convênio com a PM, oficializando sua atuação no campus. De lá para cá, a sensação de insegurança permanece na comunidade universitária.

Além disso, a presença da PM neste ambiente, não só fere a autonomia universitária pela militarização e ingerência na vida acadêmica, como também, recoloca o debate do papel da corporação no período de ditadura civil-militar vivido pelo país (1964-1989), como um dos “vícios” daquele período, que se arrastou para os nossos tempos de frágil democracia.

O problema da violência na universidade, não será combatido trazendo para seu interior, o modelo inseguro de seu entorno. A terceirização, por exemplo, agravou o problema na medida em que rompe frequentemente laços entre trabalhadores da segurança e a comunidade universitária.

Além disso, a segurança deve resultar de maior circulação de pessoas e da frequência do transporte coletivo nos campi, melhor iluminação e a presença de uma guarda própria concursada, formada e integrada à universidade e não apenas de caráter patrimonial.

Essas pautas são complexas mas, precisam ser enfrentadas assim como muitas outras bandeiras levantadas pelas ruas. Porém, convenhamos, sem as ocupações realizadas pelos estudantes da USP e UNICAMP, elas continuariam esquecidas nas gavetas de dirigentes e governantes, que não entenderam e não querem entender, os sentidos da “primavera brasileira”.

 

Vereador Paulo Bufalo e presidente estadual do PSOL-SP

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