Debate sobre igualdade de gênero aponta para estratégias em mídias digitais e alternativas

DSCN7866    12207402_10203431047256045_1104550403_o

A importância sobre a igualdade de gênero na sociedade foi tema do debate “Gênero já existe na sociedade. Por que não na escola?” realizado no Plenário da Câmara Municipal de Campinas (05/11), com representante da entidade Católicas pelo Direito de Decidir, Gisele Cristina, da educadora da Rede Municipal de Ensino, Cíntia Patti e do Grupo Identidade, o professor Rodrigo Braga apontou para que se pense estratégias para se debater gênero com uso de mídias digitais e alternativas.

A organização do evento é de Coletivos Feministas e LGBTTs de Campinas – Coletiva das Vadias de Campinas, Coletivo Rosas de Março, JSOL, Grupo Identidade e conta com o apoio do Mandato do vereador Paulo Bufalo (PSOL).

Gisele Cristina iniciou falando do retrocesso que significa para o movimento feminista o Projeto de Lei proposto pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB), “vivemos uma ditadura moral, os poderosos ocupam o espaço institucional, eles determinam leis, têm conglomerados midiáticos em que divulgam as ideias que querem, da maneira como querem e não precisam de um aprofundamento teórico, não trabalham com a veracidade das informações e até usam de uma desonestidade intelectual ao citar exemplos que não são verdadeiros”. Gisele pontuou que o modelo de sociedade que se quer manter é o patriarcal associado ao capitalismo, o que justifica a violência contra a mulher e minimiza a violência sexual e impede a existência de pessoas não Cis.

Fico me perguntando, quando eles falam em família por exemplo, porque a proposta de discutir gênero e de acabar com a desigualdade de gênero ofende a família tradicional? Ampliar o conceito de família em nada ofende os direitos já constituídos desta família tradicional? Querem manter a ideia de uma sociedade meritocrática, de um valor único e de uma sociedade que não comporta a diversidade. Eles dizem que família é pai, mãe e filhos, a gente está dizendo que é mais do que isso. Como eles conseguiram ocupar as mentes, principalmente de mulheres jovens, ocupar esses corações de uma maneira tão rápida e tão feroz. Como eles conseguem manipular o sentimento do medo, onde as pessoas acreditam que a conquista de direitos que não são seus, que a conquista de direitos de outros e outras é a retirada de seus próprios direitos?!”

Para Gisele é importante garantir o debate de gênero na lei, para se pensar políticas públicas de contratação e formação de profissionais e de materiais não sexistas que favoreçam a igualdade, para repensar o espaço da escola – que é um espaço de violência. “O gênero já está presente na escola, só que dentro de uma perspectiva de manutenção dessas opressões como a ideia de que mulher é inferior e um garoto xingar o outro de mulherzinha é ofensivo”, explica. Concluiu dizendo que deve-se pensar estratégias para se debater gênero com uso de mídias digitais e alternativas.

A educadora e mestra em questões de gênero, Cíntia Patti, abordou a desconstrução do olhar e dos esteriótipos para as crianças na educação infantil. Apresentou o trabalho dela e de outras profissionais ao colocarem os brinquedos para todas as crianças, “então menino brinca com boneca e menina veste azul, o que leva a desconstrução do comportamento”, disse. Cíntia também falou que aumentou a participação dos homens na educação dos filhos na escola onde trabalha.

Do Grupo Identidade, o professor Rodrigo Braga disse que passou momentos muito tensos na Casa. “Aqui mesmo nesta Câmara, eu ouvi que levar o debate de gênero para a escola é muito perigoso! De fato é perigoso. Porque aí, se autonomiza essas pessoas e tira poder das mãos de quem quer continuar a decidir o destino das pessoas e o transfere para as mãos de cada um, então tudo muda na vida delas”.

Braga falou que vive questões de gênero e sexualidade todos os dias na escola em que dá aulas de educação física e por meio do esporte criou mecanismos de dialogar com alunos e pais porque “todo dia tem questão de gênero e sexualidade na escola e as crianças e os adolescentes querem debater”. Concluiu lendo uma frase de uma carta que trazia de uma aluna, de 16 anos, evangélica e bissexual. “É o cúmulo em pleno século XXI vocês (vereadores) quererem tirar algo (debate de gênero na escola) que de uma certa forma salva os outros”, fica o recado alertou.

Conservadorismo nos parlamentos

O vereador Paulo Bufalo em sua saudação falou sobre o sistema imposto para se manter a opressão em mulheres e aos não Cis. “Campinas segue a avalanche conservadora que está em todo o país. O Congresso Nacional é o mais conservador desde a ditadura militar. Temos os interesses da bancada BBB – bala, boi e bíblia”. O vereador relembrou três momentos negativos, para questões de gênero, pelos quais a Câmara Municipal já passou: aprovação do PME – texto que veio diferente das Conferências; Moção em favor do Estatuto da família e a Moção contra a questão do Enem e a frase de Simone de Beauvoir.

Nosso principal objetivo e contribuir com a articulação dos diversos movimentos sociais feministas e LGBTTs para apresentarmos uma opinião diferente das impostas. Para que o Estado Brasileiro, que se reivindica democrático e laico, debata as questões de gênero e orientação sexual nas escola e no conjunto das políticas públicas, é preciso inserir esse debate no cotidiano das nossas vidas. Temos que superar o conceito de família do século passado de modelo patriarcal, que hoje não cabe mais, e não respeita o afeto, o amor e a felicidade entre as pessoas”. Bufalo apresentou índices de violência contra às mulheres e LGBTTs reforçando que a sociedade precisa superar esses retrocessos.

Emenda da opressão é retirada

A proposta de emeda à Lei Orgânica do vereador Campos filho (DEM), em proibir o debate na escola que faça referência a gênero e orientação sexual foi retirada pelo próprio vereador, ao ver que perderia a votação da segunda discussão do PELOM 145/2015, no dia 16 de novembro.

Teríamos que ter votado, o autor retirou o projeto porque sabia que ia perder. Para ocorrer a votação é preciso 2/3 dos vereadores, ou seja 22 parlamentares, como havia 25 vereadores presentes e 7 de nós votaríamos contrários os conservadores perderiam, então o projeto foi retirado. Uma vergonha na Casa”, disse Paulo Bufalo. 

Grupos contra a emenda e a favor estiveram presentes na Sessão. Inclusive aos integralistas, velhos conhecidos, como aquele servidor da policia federal que agrediu uma professora na 1ª votação da emenda, em junho.

Posted in Noticia and tagged , , , .